Escuta, Senhor Mascarado Devo-lhe um 'muito obrigada' Por fazer-me rir de novo, Após passar por tanta mágoa, A tua atitude ridícula, Que acaba de culminar Em texto tão rebuscado, Intentando em aplicar Com floreios mal-acabados Tua mais nova falácia. Mais uma fanfarronice Que me obriga a lembrar O que tua outra cara me disse E que eu já achara uma audácia: Foi que há pouco me pediste Que não te olhasse com raiva. Pois digo, amigo bufão, Não há por que preocupares Teu pensamento bondoso, Já que meu coração Não mais está rancoroso. E mesmo não poderia Após tão divertido espetáculo, No qual tu exibiste Mui aplausível atuação. Em perfeita coreografia, Tu encenaste no palco O mais hilário chiste A que já pude assistir. Um drama arlequinesco Com um 'quê' de tragicômico, Que transformou em burlesco O ódio que eu tinha de ti. E, neste circo grotesco, Mesmo que a contragosto, Acabei no picadeiro Quando pintaste meu rosto Fazendo-me colombina E incorporei por inteiro O papel que tu me deste - E diverti-me à beça: Se a colombina sofre, Ainda é a estrela da peça! O que eu não percebera Foi que eras saltimbanco; Não tardarias, portanto, A buscar outra platéia. Aconselho-te, farsante, A escrever novo roteiro, Pois quem ouve em repetido Acaba por ter cefaléia. Se teu público conhece O teor da pantomima, Não há de surpreender-se Com o clímax da história, Que há de se tornar maçante Mesmo para essa menina Que tu julgas tão ingênua, Mas creio ter boa memória. É pena não ter acesso A um registro acertado De todo este processo Para conhecer o outro lado De tua máscara ambígua E tua fingida língua, Capaz de, a cada semana, Dizer ser outra mulher A que realmente amas, Brincando de mal-me-quer Como mimada criança. Qual será a duração Máxima do teu amor? Indago-me quantas serão "a mulher da tua vida", Se em tão curto intervalo Tu cais em contradição. Com isso, te tranqüilizo, Já que estás tão preocupado Em que eu faça mau juízo De teu caráter honesto - Digo-te que não me presto A fazer tal julgamento. Declaro-te absolvido, Já que nem por um instante Te considerei culpado De algum terrível crime. Não sejas tão arrogante, Eu não estou tão ferida Posto que, jamais, na vida, Eu acreditara no amor. Tu, em contrapartida, Não te saíste ileso: Mais do que mero rancor, Tu ganhaste meu desprezo.